A Arquitetura da Incerteza
- O paradigma da matemática: \(y = f(x)\)
- Você busca a resposta exata.
- Exemplo: \(y= 2x\). Se \(x=2\), \(y=4\).
- É o mundo do “com certeza”.
- O mundo real não é assim:
- Não vem com funções prontas, há sempre ruído.
- Se você investe na bolsa, não há uma fórmula que garanta o lucro.
- Se você toma um remédio, não há 100% de certeza da cura.
A Arquitetura da Incerteza
- Se não há certeza do resultado, como tomar uma decisão?
- Através da Probabilidade.
- Papel do Estatístico e do Cientista de Dados:
- Modelar a incerteza.
- Ao invés de buscar o resultado certo, calcular o resultado “provável”.
- No mercado de trabalho e na pesquisa de ponta, as grandes decisões não são tomadas por quem sabe resolver uma conta, mas por quem sabe medir o risco e prever o futuro no meio do caos.
Probabilidade no Dia-a-dia
- A probabilidade deixou de ser apenas teoria para se tornar o “combustível” da tecnologia.
- Algoritmos de Recomendação: Por que o TikTok “vicia”?
- Por que ele roda milhões de cálculos por segundo para calcular a probabilidade de você ter interesse em um vídeo, dado tudo o que você já assistiu.
- Finanças e Risco: Por que o banco bloqueia um cartão por suspeita de fraude?
- Um modelo probabilístico detectou que o gasto é um evento raro, de baixíssima probabilidade, a partir da modelagem do seu comportamento de gastos.
Definição 1.1: Experimento Aleatório
- Um experimento aleatório é um processo que, mesmo repetido sob condições idênticas, produz resultados imprevisíveis.
- Características:
- Repetibilidade: Pode ser realizado infinitamente sob as mesmas condições.
- Variabilidade: O resultado individual é incerto (não há determinismo).
- Regularidade Estatística: Em longo prazo, os resultados seguem um padrão (frequência).
- Exemplos: Lançar um dado, tempo de resposta de um servidor, oscilação de uma ação na bolsa.
Definição 1.1: Experimento Aleatório
- Embora o resultado individual seja imprevisível, a proporção de vezes que um resultado ocorre em muitas repetições tende a se estabilizar. É essa estabilidade que permite a modelagem estatística.
Definição 1.2: Espaço Amostral (\(\Omega\))
- Conjunto de todos os resultados possíveis de um experimento aleatório.
- Propriedades:
- Não pode faltar nenhum resultado.
- Os resultados não podem se sobrepor (se um ocorre, o outro não).
- Notação:
- \(\Omega = \{ \omega_1, \omega_2, \dots, \omega_n \}\) (Discreto)
- \(\Omega = \{ x \in \mathbb{R} \mid a \le x \le b \}\) (Contínuo)
Classificação do Espaço Amostral (\(\Omega\))
- Finito: O número de resultados é limitado e pode ser contado até o fim.
- Exemplo: Resultados de um dado \(\{1, 2, 3, 4, 5, 6\}\).
- Infinito Enumerável: Os resultados nunca acabam, mas podem ser “listados” na ordem \((1º, 2º, 3º...)\). Existe uma correspondência biunívoca com os Números Naturais (\(\mathbb{N}\)).
- Exemplo: Número de tentativas até a primeira falha de um sistema.
- Infinito Não-Enumerável (Contínuo): Os resultados são tantos que é impossível listar. Representado por intervalos reais.
- Exemplo: Tempo de espera, altura, pressão arterial.
Observação sobre Espaço Amostral
- O espaço amsotral de um fenômeno não é único, mas depende do que você está observando.
- Exemplo: Se lançamos dois dados, nosso \(\Omega\) pode ser
- o conjunto de pares ordenados \(\{(1,1), (1,2), \dots, (6,6)\}\) (36 elementos)
- ou apenas a soma dos valores \(\{2, 3, \dots, 12\}\).
Definição 1.2: Conjunto Fundamental
- Definimos o conjunto fundamental ou universo de todos os objetos que estejam sendo estudados.
- Este conjunto é, em geral, representado pela letra \(U\).
Definição 1.3: Conjunto Vazio
- Definimos o conjunto vazio ou nulo como o conjunto que não contenha qualquer elemento.
- Exemplo: o conjunto dos números reais \(x\) que satisfaçam à equação \(x^2+1=0\).
- Geralmente se representa o conjunto vazio por \(\emptyset\).
Definição 1.4: Subconjunto
Um conjunto \(A\) é subconjunto de \(B\) se o conjunto \(A\) implica no conjunto \(B\).
Representação: \(A\subset B\).
Dizemos que \(A \subset B\) se todo elemento de \(A\) também é elemento de B (\(x \in A \implies x \in B\)). Na linguagem de dados, se o evento \(A\) ocorre, o evento \(B\) ocorre necessariamente.
Observação: Dois conjuntos \(A\) e \(B\) são iguais se, e somente se, eles contiverem os mesmos elementos.
- \(A=B \Leftrightarrow A\subset B\) e \(B\subset A\).
- Veremos agora operações sobre conjuntos.
Definição 1.5: União
- Sejam \(A\) e \(B\) dois conjuntos.
- Definimos \(C\) como a união de \(A\) e \(B\) (algumas vezes denominada soma de \(A\) e \(B\)) da seguinte maneira: \[
C = \{x\, |\, x\in A \text{ ou } x\in B \text{ (ou ambos)}\}.
\]
- Portanto, \(C\) será formado de todos os elementos que estejam em \(A\), ou em \(B\), ou em ambos.
- Notação: \(C=A\cup B\).
Definição 1.6: Interseção
- Sejam \(A\) e \(B\) dois conjuntos.
- Definimos \(D\) como a interseção de \(A\) e \(B\) (algumas vezes denominada produto de \(A\) e \(B\)) da seguinte maneira: \[
D = \{x|x\in A \text{ e } x\in B\}.
\]
- Assim, \(D\) será formado pelos elementos que estão em \(A\) e em \(B\).
- Notação: \(D=A\cap B\).
Definição 1.7: Complementar
- O complementar de um conjunto \(A\) é constituído por todos os elementos que não estejam em \(A\), mas estejam no conjunto fundamental \(U\), isto é, \[
A^{\mathsf{c}} = \{x|x\notin A\}.
\]
- Notação: \(A^{\mathsf{c}}\).
- Pode-se utilizar a notação \(\overline{A}\) para definir o complementar de \(A\).
- Uma forma de visualizarmos operações sobre conjuntos é por meio do Diagrama de Venn:
- As operações de união e interseção podem ser estendidas, intuitivamente, para qualquer número finito de conjuntos.
- Definimos \(A\cup B\cup C\) como \(A\cup (B\cup C)\) ou \((A\cup B)\cup C\).
- Analogamente, definimos \(A\cap B\cap C\) como \(A\cap (B\cap C)\) ou \((A\cap B)\cap C\).
- Podemos continuar essas composições para qualquer número finito de conjuntos.
Exemplo 1.1
Suponha que \(U=\{1,2,3,4,5,6,7,8,9,10\}\), \(A=\{1,2,3,4\}\) e \(B=\{3,4,5,6\}\). Determine
\(A^{\mathsf{c}}\)
\(A\cup B\)
\(A\cap B\)
Leis Comutativas
\(A\cup B = B\cup A\)
\(A\cup (B \cup C) = (A\cup B) \cup C\)
Leis Associativas
\(A\cap B = B\cap A\)
\(A\cap (B \cap C) = (A\cap B) \cap C\)
Outras identidades de Conjuntos
\(A\cup (B\cap C) = (A\cup B) \cap (A\cup C)\)
\(A\cap (B\cup C) = (A\cap B) \cup (A\cap C)\)
\(A\cap \emptyset = \emptyset\)
\(A\cup \emptyset = A\)
\((A\cap B)^{\mathsf{c}} = A^{\mathsf{c}} \cup B^{\mathsf{c}}\) (Lei de Morgan)
\((A\cup B)^{\mathsf{c}} = A^{\mathsf{c}} \cap B^{\mathsf{c}}\) (Lei de Morgan)
\((A^{\mathsf{c}})^{\mathsf{c}} = A\)
- g e h mostram que \(\emptyset\) se comporta entre os conjuntos (relativamente às operações \(\cup\) e \(\cap\)) da maneira que o zero (com relação às operações de adição e multiplicação) o faz entre os números.
Produto Cartesiano
Sejam \(A\) e \(B\) dois conjuntos.
O produto cartesiano de \(A\) e \(B\), denotado por \(A\times B\), é o conjunto de todos os pares ordenados nos quais o primeiro elemento é tirado e \(A\) e o segundo, de \(B\). Ou seja, \[
A\times B = \{(a,b), a\in A, b\in B\}.
\]
Exemplo
Suponha que \(A=\{1,2,3\}\) e \(B=\{1,2,3,4\}\). Então, \[
A\times B = \{(1,1),(1,2),\ldots,(1,4),(2,1),\ldots,(2,4),(3,1),\ldots,(3,4)\}.
\]
- Se existir um número finito de elementos no conjunto \(A\), digamos \(a_1, a_2,\ldots,a_n\), diremos que \(A\) é finito.
- Se existir um número infinito de elementos em \(A\) que possam ser postos em correspondência biunívoca com os inteiros positivos, diremos que \(A\) é numerável ou infinito enumerável.
- Se os elementos do conjunto \(A\) não puderem ser enumerados, ele é dito infinito não numerável.
Exemplo 1.3
Suponha que o conjunto fundamental seja formado pelos inteiros positivos de 1 a 10. Sejam \(A = \{2, 3, 4\}\), \(B = \{3, 4, 5\}\) e \(C = \{5, 6, 7\}\). Enumere os elementos do conjunto \(A \cap (B\cup C)^c\).
Exemplo 1.4
Suponha que o conjunto fundamental \(U\) seja formado por \(U = \{x ~|~ 0 \leq x \leq 2\}\). Sejam os conjuntos \(A\) e \(B\) definidos da forma seguinte: \(A = \{x ~|~ 1/2 < x \leq 1\}\) e \(B = \{x ~| ~1/4 \leq x < 3/2\}\). Descreva o conjunto \((A\cup B)^c\).
Exemplo 1.5
A relação \((A \cup B) \cap (A \cup C) = A \cup (B \cap C)\) é verdadeira?
Exemplo 1.6
Suponha que o conjunto fundamental seja formado por todos os pontos \((x, y)\) de coordenadas ambas inteiras, e que estejam dentro ou sobre a fronteira do quadrado limitado pelas retas \(x = 0\), \(y = 0\), \(x = 6\) e \(y = 6\). Enumere os elementos do conjunto \(A = \{(x, y) ~|~ x^2 + y^2 \leq 6\}\).
Exemplo 1.7
Empregue o diagrama de Venn para estabelecer a relação \(A \subset B\) e \(B \subset C\) implica que \(A \subset C\).